O soco racional

"Aqui vemos sonhos tirados de livros"

Ambientalismo, Libertação Animal e Capitalismo (Dennis Bluwol)

with one comment

Por que é que o sofrimento dos animais me comove tanto?

Porque fazem parte da mesma comunidade a que pertenço,

da mesma forma que meus próprios semelhantes.

Émile Zola

 

Introdução

 

A proposta do presente artigo é discutir algumas questões referentes à prática vegana no mundo contemporâneo. O veganismo é um modo de viver que exclui o consumo de produtos advindos da exploração de animais. Isto é, advindos da posse e uso de animais para o interesse humano. Estende-se não só à alimentação, mas também às roupas, produtos de higiene ou limpeza, diversões, etc. Em suma, refere-se a todas as dimensões da vida. É uma maneira de conviver com ou outros animais respeitando seus interesses de não serem propriedade, de não sofrerem, não serem presos, torturados, manipulados, debicados, engaiolados, enjaulados, acorrentados, adestrados, isolados, paralisados, testados, pendurados e assassinados, entre outras formas de sofrimento infligidas a eles pelos humanos. É, também, uma forma de considerar a existência da senciência nesses seres, ou seja, respeitar a sensibilidade e consciência neles presente.

Porém, o interesse desse artigo não é debater o veganismo em si. Para isso há já muitos artigos e livros de diferentes fontes, ligadas a diferentes pontos de vista, princípios, objetivos e correntes do pensamento ético. Fontes para lê-los estão colocadas no fim do texto. O interesse é pensar sobre a prática vegana como parte de possíveis renovações nos modos de relação da humanidade com o resto da natureza, bem como entre os membros da humanidade.

Para além de sermos veganos, esse artigo deseja perguntar: que tipo de vegano queremos ser? Inseridos em quais tipos de relações?

Para mim, ser vegano não é apenas um rótulo, algo que se adere, cumpre alguns mandamentos e pronto, se ganha um atestado de moralidade. Deixemos esse tipo de postura para as religiões. Esse tipo de postura leva à práticas nas quais se entende que não havendo algo animal no produto a ser consumido, tudo está ótimo. Ser vegano, além de possuir o rótulo, do qual muitos de nós nos orgulhamos, deveria ser entendido, ao meu ver, como a posse de posturas conscientes de vida, em pautar a vida em práticas não exploratórias, em formas não exploratórias de conviver, de participar e se inserir no mundo.

Há, portanto, essa causa urgente para os animais, e virar vegano é um ponto de partida fundamental. O objetivo desse texto não é negar o ponto de partida do veganismo, que refere-se basicamente a uma escolha de consumo, mas, para além deste mínimo, o objetivo é propor possíveis aprofundamentos das suas práticas, tanto no que se refere às formas menos aparentes do sofrimento animal, quanto incluindo a questão da exploração dos animais humanos no debate, para, com isso, tentar entender relações mais profundas para poder gerar mudanças mais radicais e satisfatórias, principalmente no sentido de compreender o que é a natureza em que estamos inseridos, como nos relacionamos com “ela” e que novas relações podemos desejar.

 

I – O conceito de natureza como forma de compreender a realidade

 

Poucas vezes é discutida publicamente (fora dos muros de academias, universidades, centros de pesquisa e alguns pólos de discussão crítica, principalmente nos meios tidos como underground) a possibilidade de que muito do que não caminha do melhor modo possível para a maioria das pessoas pode advir de questões de cunho conceitual, de discussões teóricas que, em suas dimensões práticas, ajudam a moldar o mundo como é, e, ao mesmo tempo, de que práticas consolidadas historicamente geram referenciais teóricos e idéias que viram senso-comum e são transmitidas quase que automaticamente de geração para geração, como se fossem verdades incontestáveis.

Um exemplo de grande importância é o que nossa sociedade reconhece como natureza. Estamos acostumados a ouvir coisas do tipo “a natureza corre perigo”, “salvem a natureza”, “estamos acabando com os recursos naturais”. Mas o que querem dizer quando dizem a palavra “natureza”? Será mesmo que é uma palavra de tão simples definição como aprendemos a pensar desde a escola, aquela visão de natureza como as coisas que existem além do homem, como plantas, outros animais (que nem chamamos de “outros”, mas de “os animais”, não nos considerando também animais), rochas, relevos, atmosfera, ambientes, etc.?

Uma forma de começar a refletir sobre isso é pensar que cada pessoa, dependendo de como vive, possui com a terra, e, portanto, com a Terra, certo tipo de relação e identificação. “Por exemplo, se para um empresário de mineração natureza é fonte de matérias-primas de onde extrai a mercadoria com a qual obterá lucros, já para o camponês, natureza é meio de sobrevivência, ou, de outro lado, se para o especulador de terras natureza é investimento imobiliário, já para os índios é um espaço de vida que não se vende nem se compra.” (CARVALHO, 1999, p. ).

Portanto, é fácil concluir que “natureza” é um conceito socialmente, historicamente e geograficamente constituído. Porém, é também fácil detectar que existe uma visão do que é natureza que se tornou a padrão em nossa sociedade: a de que “natureza” é algo externo aos humanos.

Um grande primeiro passo na direção de uma mudança nas relações sociais (e, portanto, ambientais) existentes é a percepção de que o homem é também natureza, assim como o que ele produz. A natureza não pode ser entendida simplesmente como o lugar onde os homens podem tiram as coisas para seu sustento ou talvez possam morar.

Humanidade e natureza são, na verdade, uma coisa só. Podemos compreender então que quando um homem explora outro homem, está explorando uma parte da natureza. Provavelmente, estará também explorando o resto dela, pois vivemos em um mundo pautado na exploração de tudo e todos por parte de quem possui poder para tal. Hoje, em grande parte do mundo, essa exploração se dá em nome da acumulação capitalista, como veremos em breve.

A compartimentação da natureza se dá não só entre os humanos e o resto da natureza. Dá-se, também, no modo como vemos separadamente todos os elementos que a formam, vistos como matérias-primas cuja finalidade é servir à produção de bens. Este é o padrão de natureza que pauta nosso modelo de sociedade, lembrando que “toda sociedade, toda cultura cria, inventa, institui uma determinada idéia do que seja natureza.” (GONÇALVES, 2000, p.23) e que, provavelmente, “a natureza sequer teria sido reconhecida enquanto alteridade (…) distinta da dos homens, se as relações sociais não tivessem conduzido historicamente a esta separação entre o ´mundo natural` e o ´mundo social`“ (CARVALHO, 1999, p. ). Pois se algo é natureza, é porque algo não é.

A visão de que o resto da natureza é inferior aos humanos e que é nosso direito (e mesmo nosso dever, em alguns casos) usá-la como quisermos pode ser facilmente encontrada em várias e antigas tradições, algumas muito presentes até os dias atuais, como em partes da tradição grega e na tradição judaico-cristã, tanto no Velho, como no Novo Testamento. Os ecos dessas duas tradições são ainda fortemente presentes nas sociedades ocidentais contemporâneas. Contudo, não se trata de uma visão de natureza existente apenas nas sociedades ocidentais filhas do pensamento grego e da ortodoxia judaico-cristã. A visão de mundo em que a natureza é algo a ser explorado e controlado para os objetivos humanos de conquista e poder é, de certo modo, a base de nossa civilização, presente em todas as ditas sociedades civilizadas, seja no ocidente ou no oriente.

A visão compartimentada de mundo acima apontada foi claramente posta como corrente sistematizada de pensamento no mundo ocidental moderno e científico a partir de Descartes e seus seguidores. Em seu livro Discurso Sobre o Método, Descartes chega a dizer que aprendendo sobre a natureza e sua força “poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza” (DESCARTES, 1999, p.86). E foi essa visão de natureza que embasou o nascimento das ciências modernas.

A filosofia cartesiana, enquanto modo de se compreender o mundo baseado em uma visão mecanicista da natureza foi altamente adequada para o crescimento da burguesia mercantil. Uma dimensão importante dessa adequação foi ter-se criado uma visão dessacralizada de natureza. Ou seja, por ter sido diminuída em importância a visão sagrada (Católica) de mundo existente durante o Feudalismo, foi possível passar a explorar a natureza de um modo muito mais agressivo, sem culpas ou preocupações de cunho metafísico, pois uma moralidade baseada no temor a um deus que poderia se enervar com certos tipos de agressão à sua criação não mais era um grande problema para a emergente burguesia. Podia-se, então, compartimentar a natureza, esquartejá-la, pois era algo morto, não mais habitado por deuses. A natureza virou matéria-prima, os animais viraram máquinas.

É importante dizer que a oposição à visão de natureza advinda da Igreja Católica é algo que considero positivo. Porém, o que se instaurou como opção não foi uma posição ateísta baseada no respeito verdadeiro à todas as formas de vida. O cartesianismo e a emergência da burguesia apenas radicalizaram os processos de domínio do homem sobre a natureza de forma nunca antes vista. De forma tão poderosa que nem mesmo o tal deus em que muitos burgueses ainda acreditam foi capaz de apaziguar. E, com a mudança do status quo do feudalismo para o capitalismo, a Igreja se adequou perfeitamente aos novos moldes.

O século XIX reforçou a visão cartesiana de mundo, pois foi o momento do nascimento das disciplinas científicas como conhecemos hoje. Com a idéia de que “natural” e “social” são instâncias diametralmente diferentes da realidade, são criadas as ciências ditas naturais e as ciências ditas sociais, que aparentemente, assim como postas para a sociedade pelos acadêmicos devotos desta falsa divisão, são ciências que atuam em campos totalmente diferentes, e, deste modo, a idéia de natureza como algo compartimentado e separado da humanidade foi altamente reforçada.

Assim, disseminado como senso-comum, o conceito parece algo estático, indiscutível. A simples idéia de que o que “todos” chamam de “natureza” pode ser outra coisa que não aquela que “todos” chamam aparentemente desde sempre, parece ridícula e sem interesse para muitos.

Um exemplo dessa visão compartimentada pode ser facilmente percebido nos discursos da maioria dos movimentos ambientalistas, onde ainda ouve-se sempre: “o homem está destruindo a natureza!”. Porém, não se diz qual homem está destruindo a natureza, nem o que está se chamando de natureza. Com certeza não é o índio nem o camponês clássico (não ligado ao capitalismo) que estão destruindo a terra onde vivem e retiram o que é necessário para suas sobrevivências. Quem destrói o seu meio ambiente é certa parcela da humanidade sob certa cultura, que gera certo conceito de natureza, que na prática é a própria relação desses humanos com o resto da natureza. No mundo moderno essa relação pode ser entendida como o próprio modo de produção capitalista.

 

II – A alienação urbana capitalista

 

Uma síntese da operacionalidade do modo de produção capitalista, ao menos em sua origem, é o fato de haver uma maioria que não possui meios de produzir suas próprias coisas e uma minoria que detém os meios de produção. A maioria deve vender à minoria burguesa sua força de trabalho para produzir as mercadorias que deverão depois comprar com o salário que ganharão pelo trabalho. Esse salário é, claro, muito menor do que o valor da mercadoria produzida. A diferença entre o que o burguês gasta para comprar matéria-prima, máquinas e pagar salários e o que ganha ao vender a mercadoria é a chamada mais-valia que, reinvestida e guardada gera a acumulação de capital que é o objetivo de todo burguês. Este processo diz respeito às origens fabris do capitalismo e deve ser ampliado para compreender outras expressões de sua fase atual. Porém, a estrutura exploratória básica continua a mesma. E a questão que mais importa, para os objetivos argumentativos desse artigo é que a exploração é a espinha-dorsal do capitalismo.

O capitalismo possui em sua origem a separação das pessoas dos locais onde anteriormente retiravam os elementos básicos para a sobrevivência, principalmente no que se refere à alimentação. Um êxodo rural foi necessário para se fixar o capitalismo como modo de vida. O motivo mais óbvio é a necessidade de mão de obra nas fábricas. Porém, algo especialmente importante está em jogo aí, que faz com que esse modo de produção funcione: pessoas afastadas do campo, a não ser que sejam os próprios burgueses, não possuem outra escolha a não ser estarem subordinados ao capital, pois não tendo como retirar diretamente da terra o necessário para a sobrevivência, faz-se necessário comprar os alimentos, roupas e tudo mais no mercado. Para comprar é necessário possuir dinheiro. Para ter dinheiro necessita-se de emprego. Com gente necessitando de emprego para comer, o burguês pode explorá-los. Com gente sendo explorada, produzem-se mercadorias que são postas no mercado para que essas mesmas pessoas, impossibilitadas de ter acesso direto a estes produtos, possam obtê-los pela compra. Com isso gera-se um ciclo de acumulação de capital. Portanto, a urbanização e a radicalização da ruptura da relação direta entre as pessoas e o resto da natureza são essenciais à manutenção do capitalismo.

Castoriadis traz a seguinte reflexão: “A idéia de que natureza é somente um domínio a ser explorado pelos homens, por exemplo, é tudo o que quisermos exceto evidente do ponto de vista de toda a humanidade anterior, e, ainda hoje, dos povos não industrializados. Fazer do saber científico essencialmente um meio de desenvolvimento técnico, dar-lhe um caráter predominantemente instrumental, corresponde também a uma atividade nova. A aparição destas atitudes é inseparável do nascimento da burguesia […].” (CASTORIADIS, 1982, p.31).

Somos, portanto, uma sociedade urbana e capitalista. Possuímos uma relação estritamente mercadológica com uma natureza tida como fonte de matérias-primas. Somos cada vez mais alienados não só do resto da natureza, de seus processos e ciclos, mas somos também cada vez mais alienados de nossa própria natureza e experienciamos cada vez mais sensações de angústia, perda, confusão em um mundo urbano cada vez mais rápido e rapidamente mutável, no qual a dificuldade de se identificar e de se achar torna-se cada vez mais evidente. Trata-se, portanto, de uma sociedade cada vez mais perdida em muitos sentidos, cada vez mais alienada em muitos sentidos.

 

III – Críticas aos movimentos ambientalistas

 

Hoje, com tantos movimentos ambientalistas ativos, ainda continuamos com os problemas ambientais se agravando cada vez mais. Isso se dá, logicamente, pela força das empresas, indústrias e mega-corporações, porém também pela pouca resistência oferecida, dado o caráter da maioria destes movimentos, que não possuem uma visão mais profunda sobre o funcionamento do mundo moderno, ou seja, uma reflexão conceitual que permita compreender a realidade com maior radicalidade.

As discussões sobre impactos causados ao meio-ambiente não podem ficar simplesmente no consagrado “o homem é mal e destrói a natureza”. Há que se aprofundar esta discussão. O fato é que o modo de produção a nós imposto, o chamado Capitalismo, necessita imprescindivelmente, para seu funcionamento, da exploração da natureza, sendo natureza não só árvores, animais não humanos, solos, águas, etc., mas também os humanos e suas sociedades.

Tais movimentos, se pretendem realmente uma transformação no modo como a humanidade se porta em relação ao resto da natureza, necessitam primeiramente acabar com esta falsa divisão humano-natureza, que, como vimos, é uma alienação geradora de inúmeros problemas e que está a serviço de um tipo de mundo pautado na exploração.

Além disso, cabe aos movimentos ambientalistas sempre lembrar que quando se briga por algo específico não se deve esquecer o todo que gerou este problema. Por exemplo, quando se briga contra o massacre de algum animal, não se deve esquecer que quem o está matando provavelmente também está sendo explorado, dada sua necessidade de dinheiro para sobreviver. Há, portanto todo um sistema de exploração montado que explora a natureza como um todo, seja um animal como uma baleia ou uma tartaruga, seja o trabalhador que é obrigado a matar estes animais e muitas vezes viver uma vida perigosíssima em alto-mar para ter sua remuneração que trocará por comida, roupas e outras necessidades básicas. Não estou querendo justificar a caça a estes animais, fato que repudio e que creio que se deva sempre lutar contra, porém, estou tentando mostrar que a briga é muito mais ampla. Brigar contra os navios baleeiros é válido, mas é preciso que se brigue também contra todo o modo de produção que gera a caça de animais em nome da acumulação de capital sem se preocupar com os danos causados ao meio ambiente ou à vida destes seres sensíveis.

Este é o momento de fazer duas ressalvas.

Primeira: é lógico que em modos de produção não capitalistas também há massacre de animais e destruição ambiental, mas o que tento mostrar é que enquanto houver Capitalismo, cujo objetivo é o acúmulo de capital baseado na exploração da natureza (incluindo o ser humano enquanto força de trabalho), não será possível uma real transformação no modo como a humanidade se relaciona com o resto da natureza. O Capitalismo não irá deixar de explorá-“la”, já que, como visto anteriormente, a exploração é a espinha-dorsal do Capitalismo.

Segunda: as raízes do modo opressor de relação com a natureza, muito provavelmente, datam das origens da civilização, ou seja, a partir da revolução agrícola, dez mil anos atrás. Há excelentes autores que trazem a discussão de que a revolução agrícola foi o início de um processo cuja espinha-dorsal é a expansão da crença de que toda a natureza serve aos propósitos humanos, que só é necessário existir as espécies que nos interessam diretamente para o consumo. Foi o início da propriedade privada, já que se deixou de ser caçador-coletor para ser agricultor sedentário. Por possuir reservas de alimentos e pelas próprias características umbiguistas e violentas desse modo de vida, a colonização e extermínio das outras formas de vida (incluindo aí as outras culturas humanas) foi o projeto em que essa parcela da humanidade se lançou com grande sucesso. O resultado desse processo, que continua em andamento, somos nós, nosso modo de relação com o resto da natureza e nosso modo de relação com as poucas culturas humanas não civilizadas que sobraram. Não é difícil ver como esse processo de dez mil anos gerou, nos últimos séculos o modo de produção capitalista, assim como o modo de produção socialista baseado em Estados centralizadores, assim como todas as religiões dogmáticas e salvacionistas e muitas outras aberrações que compõem a espinha-dorsal da vida humana no planeta.

Voltando a discussão sobre os movimentos ditos ambientalistas, é fácil observar que grande parte dos mesmos não é contra o modo capitalista de produção, e muitos são até parceiros, tendo apoio da chamada iniciativa privada, ou seja, as empresas capitalistas. Isso se dá pois a principal luta deles é a conservação dos recursos naturais que servem de matéria-prima para estas indústrias. Natureza para estes movimentos e indústrias é apenas uma fornecedora de matéria-prima e, portanto, deve-se conservá-la minimamente. Com isso, cria-se algo meio obscuro, pois no discurso destes movimentos (geralmente na forma de ONGs) a natureza é destruída por um homem despersonalizado e abstrato. Não se percebe (ou melhor, não se revela) que o que existe são homens concretos que são também explorados pelo mesmo interesse que se explora o meio ambiente. Esses movimentos podem ser chamados de “Capitalismo verde”, e são, infelizmente, a esmagadora maioria dos movimentos ditos “ambientalistas” ou “ecológicos”, ao menos dos que possuem acesso ao grande público, principalmente no que diz respeito à veiculação de suas idéias nas grandes mídias, com o apoio financeiro da iniciativa privada ou do próprio governo estatal que, logicamente, também possui seus interesses capitalistas na exploração de seu território e de seus habitantes.

 

IV – Pensando o veganismo

 

Colocadas estas reflexões, posso prosseguir para a discussão sobre as questões referentes ao modo como os animais são encarados em nosso mundo.

Algumas reflexões muito bem feitas já foram realizadas sobre este tema, destacando-se, para falar do que já foi traduzido para o Português, as obras de Tom Regan, Gary Francione e, com os devidos poréns, Peter Singer, além dos brasileiros, como, por exemplo, a professora Sônia T. Felipe. Como reflexão no campo da ética estas obras nos apresentam argumentos suficientes para se ir contra qualquer tipo de exploração dos animais, principalmente pela imoralidade de tratar um ser senciente como propriedade, mas também por fatores como os imensos impactos ao meio-ambiente resultantes da indústria da carne e outros produtos de origem animal, além de outros pontos de análise. O objetivo aqui não é repetir o que já foi escrito nestas obras, mas colocar algumas das discussões do que hoje é conhecido como movimento de libertação animal dentro da proposta deste artigo, numa tentativa de aprofundar a discussão em certos sentidos e apontar para possíveis resoluções para estas problemáticas.

Novamente coloco a questão do conceito de natureza para abordar esta questão. Todos os animais são igualmente parte deste grande conjunto de relações que podemos denominar de natureza. Seja um pardal ou um ser humano.

Em linhas gerais, a relação que o ser humano atual possui com outras espécies animais pode ser definida em uma palavra: especismo. Ou seja, há um preconceito colocado em nossa sociedade (mas que é um preconceito muito mais antigo do que nós) que diz que outras espécies animais são menos dignas de respeito e bons tratos do que nossa espécie. É o mesmo discurso do racismo, do sexismo, ou de outros preconceitos de caráter excludente de uma parte dos seres por razões não explicáveis ou não defensáveis moralmente.

Para que essa repulsiva indústria exista nos moldes que existe hoje, não podemos enxergar-nos como parte desta mesma natureza que é presa, torturada e abatida nas fazendas-fábricas e seus matadouros. Não podemos nos sentir parte desta situação assustadora. Aí, mais uma vez se encaixa a questão do conceito do que é a natureza posto para nós como uma verdade indiscutível, como analisado no início deste artigo. O ser humano não se vê como um animal, pois considera que os animais sejam aqueles seres inferiores e sem consciência que estão aqui para nos servir. Até bem pouco tempo atrás se mudássemos a palavra “animais” por “negros” na última sentença, ela seria lida com a maior tranqüilidade, sem causar espanto em grande parte da população não negra.

Novamente voltamos à questão: toda a natureza é explorada do modo como é hoje para um certo objetivo: a acumulação de capital, que é o objetivo do capitalismo. E, novamente, é óbvio que se tortura e se come animais desde tempos imemoriais, talvez. Porém, a exploração animal é uma parte importante do capitalismo, e não será detida por completo enquanto o capitalismo não for detido.

O que é uma vaca para um burguês? É uma máquina onde se coloca grãos e cereais baratos e abundantes (que poderiam alimentar um enorme número de pessoas a baixos custos) e se retira, ao final do processo (que é cada vez mais rápido, dado o uso de hormônios sintéticos e outras aberrações químicas), carne com um valor comercial bem maior do que o dos grãos e cereais, que será vendida para uma parcela da população mundial que possui dinheiro para isto e está disposta a trocá-lo por este pequeno e injustificável prazer degustativo momentâneo.

A vaca, a galinha, os porcos, enfim, todos os animais são apenas matérias-primas para indústrias altamente lucrativas para pessoas que não se importam nem o mínimo com o sofrimento destes animais, com as horríveis condições de vida a que são submetidos, com os impactos ambientais calamitosos provocados por esta indústria, com o número dezenas de vezes maior de pessoas que poderiam ser muito bem alimentadas com as fontes vegetais de nutrientes, com a grande área de floresta que seria poupada do desmatamento para a criação de pastos e grãos, com a imensa quantidade de água que é desperdiçada ou poluída com dejetos de animais, antibióticos, hormônios e outros produtos químicos, etc.

Aliás, é bom colocar que é claro que a problemática da fome no mundo pode (e deve) ser observada sob o prisma da concentração de renda e da concentração fundiária existente em todo o mundo, inclusive, de forma violenta, no Brasil. É impossível desconsiderar isto. Porém, é bom ressaltar que a questão não é só esta. Suponha que um dia estas concentrações terminem e todos possam ter acesso ao que quiserem, pelo menos para se alimentar, a mais básica das necessidades. Se todos, considerando a população mundial atual que cresce vertiginosamente, desejarem pratos à base de carne, leite e ovos, de acordo com pesquisas recentes, precisaríamos de pelo menos quatro planetas como a Terra para criar todos esses animais. E este número varia para mais, se considerarmos outros luxos de classes mais abastadas e consumidoras de produtos industrializados em excesso. Ou seja, mesmo que se quisesse, seria impossível alimentar toda a população do mundo com carne, ovos ou leite. Não há condições pelos próprios limites do planeta. Portanto, é totalmente contraditório se defender uma posição contra o modo de produção exploratório hoje existente e continuar incentivando o consumo de animais. Não é possível existir uma sociedade mais justa e igualitária no mundo se não se mudar o mais essencial dos atos, que deveria ser praticado por todos algumas vezes ao dia: se alimentar.

A burguesia, com o auxílio de uma de suas mais execráveis armas, o marketing, embute nas pessoas cada vez mais necessidades superficiais que se tornam centrais na vida de um número altíssimo de pessoas, mesmo naqueles que não podem pagar por elas, mas que não por isso não possuirão o desejo de um dia possuir algo daquilo que o protagonista acéfalo da novela adquiriu, ou do que o comercial que associa mulheres semi-nuas e juventude desmiolada ao sucesso e bem estar nada sutilmente lhe ordena comprar. Tais “necessidades” fazem a produção de mercadorias crescer vertiginosamente e continuamente, a acumulação de capital ser cada vez maior e, portanto, a exploração da natureza alcançar patamares cada vez mais insustentáveis: mais exploração de matéria-prima, de trabalhadores ou de animais usados como ingredientes ou como cobaias em inúmeros e sofridos testes em seus organismos a cada novo ingrediente ou fórmula desenvolvida. Cada novo produto lançado é uma nova facada contra nós mesmos. É um atentado contra a natureza. É um prolongamento do holocausto imposto aos animais.

Ai das indústrias se as pessoas tivessem o discernimento de que elas são também natureza e de que não podem ser vistas como matéria-prima. Sim, as pessoas são vistas no mesmo nível de importância que um pedaço de bauxita pelos burgueses. Apenas têm nomes diferentes no processo exploratório: um é matéria-prima, o outro é força-de-trabalho. A única diferença é que este último precisa comer, e, portanto, precisa de seu ínfimo salário, uma pequenina parte do valor do que essa força-de-trabalho cria com aquela matéria-prima. O resto é lucro. E se há lucro, é com a natureza que o burguês vai se preocupar? Que se explore mineral, vegetal, animal não humano ou animal humano. É assim que o modo de produção em que estamos inclusos opera.

Se quisermos caminhar na direção de um movimento de “libertação animal” que possua alguma chance de sucesso, não podemos deixar estas questões de lado. Libertar os animais de sua condição de vida atual sem pensar em libertar também os humanos e todo o resto da natureza das reais forças por trás das explorações, é um trabalho fadado ao fracasso. Não podemos querer um capitalismo vegano, como parece ser o caso em muitos discursos. Capitalismo e veganismo, como tentei mostrar durante este texto, ainda que com outras palavras, são práticas contraditórias, se considerarmos a questão de uma forma mais radical, pensando na realização completa de um mundo onde animais não-humanos não sejam propriedade nem sofram nas mãos da humanidade. Não podemos deixar que o capitalismo se aproprie do vegetarianismo como se este fosse apenas um nicho de mercado. Não somos um nicho de mercado. Devemos ser uma opção real de luta contra qualquer exploração, no caminho de um futuro mais justo e igualitário.

 

Considerações Finais

 

Alguns pontos podem ser acrescentados ainda, para refletir nossa prática vegana no mundo. O primeiro é que ser vegano, independentemente da posição política, é um ponto de partida. Espero ter conseguido transmitir que acho que a exploração animal não se acabará por completo enquanto vivermos em um modo de produção baseado na exploração. Porém, isso não impede que todos façam o mínimo, que é cortar o consumo de produtos de origem animal. Não é a solução completa, mas já melhora muito a situação dos animais, ao menos dos que são criados como propriedade de empresas.

Porém, há um outro tipo de massacre de animais que deve ser levantado e, ao meu ver, incorporado nas críticas feitas pelos movimentos de libertação animal, bem como em nossas práticas veganas. Este tipo de massacre diz respeito aos impactos aos ecossistemas que as atividades humanas exercem, mesmo que sejam atividades que não utilizem produtos de origem animal.

Produtos industrializados, produtos que utilizam grandes quantidades de embalagens, de produtos advindos da indústria petroquímica, de químicos sintéticos, de toxinas, etc., podem até serem feitos apenas de produtos vegetais e sintéticos e não serem responsáveis pela morte de um animal específico. Porém, são responsáveis pela destruição de ecossistemas inteiros. De oceanos, florestas, rios, atmosfera, etc. E, claro, de um número incontável de animais.

É algo que devemos pensar. Será que, em nossas práticas veganas, não estamos consumindo uma série de produtos sintéticos responsáveis por uma enorme poluição com produtos altamente tóxicos? Será que nossas fontes de produtos vegetais não são advindas de grandes monoculturas com alto uso de agrotóxicos que destroem ecossistemas e espécies nativas inteiras mundo afora? Será que nossa vida urbana, onde o máximo de opção que possuímos é escolher que produto industrial queremos comprar abre espaço para uma real relação respeitosa com o resto da natureza, inclusive com os outro animais?

Talvez um caminho importante seja fundir aspectos da visão de mundo dos movimentos ambientalistas com aspectos da visão de mundo do veganismo, no seguinte sentido: o ambientalismo costuma preocupar-se com as espécies e ecossistemas e suas ações costumam ser no sentido de compreender e divulgar o funcionamento desses ecossistemas, assim como o impacto humano sobre eles. Já o veganismo costuma preocupar-se com os animais enquanto indivíduos e suas ações costumam ser no sentido de compreender e divulgar o sofrimento e as necessidades destes animais (ainda que revelando também os comportamentos e habitats que seriam os originais se os animais não estivessem presos e domesticados). Penso que se juntarmos as escalas de análise dessas duas visões poderíamos construir posturas mais conscientes e efetivas. Algo como posturas com princípios veganos, mas também agindo pensando no impacto de cada ação aos ecossistemas e construindo vidas mais integradas a eles.

É essencial, portanto, seja quais forem os caminhos de mudança escolhidos por cada indivíduo, que o pensamento e a ação sejam ecossistêmicos. Para tal é preciso aprender sobre como a natureza opera, como são seus ciclos, suas conexões. Aprender a observar. Aprender como construir nossa vida de modo integrado aos ciclos e processos naturais. Isso sim seria uma grande mudança!

Estas são questões que acho que permitem com que possamos ir além da simples aquisição do rótulo de vegano, começando a construir práticas mais conscientes e responsáveis de vida, pautadas em organizações e relações não exploratórias e respeitosas para com toda a vida existente.

Como uma sugestão, é importante pensar em formas de ruptura com o modo de vida urbano (em essência alienado do resto da natureza). Não creio haver apenas uma forma de fazer isso, nem que necessariamente todos devam deixar a cidade. Porém, é imprescindível que novos modos de vida surjam. E isto me parece urgente. Alguns caminhos estão sendo apontados por conhecimentos como a Permacultura e a Agroecologia, ou por modos de organização mais coletivos, como as ecovilas. Mas há muitas outras opções possíveis e ainda podemos criar muita coisa, pois acredito que uma das características das mudanças necessárias é o não apego a formas únicas de transformação e de modos de vida, abrindo espaço para uma real diversidade, desde que pautadas em relações respeitosas entre os humanos e entre os humanos e o resto da natureza. Isto seria, talvez, ir além do veganismo, não negando-o, mas mantendo suas propostas como parte de um processo ainda maior de mudança. Um processo não hierárquico e não centralizado em diretrizes únicas e, por isso, dependente das posturas de cada um de nós.

 

 

Bibliografia: BLUWOL, Dennis Zagha. Críticas ao conceito de Natureza, ao Ambientalismo e ao Veganismo em tempos de Capitalismo. In: http://www.abolicionista.blogspot.com/

 

 

 

 

 

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  1. Dennis Zagha Bluwol é mestre em Geografia. Possui como interesses principais escrever sobre problemáticas geográficas da existência na espacialidade urbana, os conceitos de natureza, as bases de nossa civilização, o modo de produção capitalista, possíveis modos de organização social e de relação com o resto da natureza, o pensamento ecossistêmico, o abolicionismo e o ateísmo.
    email: dennis_zb@yahoo.com.br

    Michel Amary Neto

    fevereiro 18, 2009 at 1:05 pm


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