O soco racional

"Aqui vemos sonhos tirados de livros"

Desobediência Civil (H.D.Thoreau)

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Eu aceito de coração o lema que diz “o melhor governo é aquele que menos governa” e gostaria de vê-lo aplicado mais rápida e sistematicamente. Levado adiante, ele finalmente culmina neste outro, no qual também acredito – “o melhor governo é aquele que não governa”; e quando os homens estiverem preparados para tal, este será o tipo de governo que terão. Um governo não é mais que, na melhor das hipóteses, uma conveniência; embora a maioria normalmente seja, e todos são, às vezes, um inconveniente. As objeções que têm sido levantadas contra um exército permanente – são muitas e consideráveis, e merecem prevalecer, podem também afinal, serem levantadas contra um governo permanente. O exército permanente é apenas um braço do governo permanente. O governo em si, que é apenas o modo pelo qual o povo escolheu para executar sua vontade, é igualmente sujeito a ser abusado e pervertido antes que o povo possa agir através dele. Veja a atual Guerra Mexicana, obra de relativamente poucos indivíduos, usando o governo permanente como ferramenta, apesar de que o povo não consentiria esta medida no princípio.

Este governo americano – o que é senão uma tradição, ainda que recente, esforçando-se para transmitir-se inalterado para a posteridade, mas a cada instante perdendo algo de sua integridade? Ele não possui a vitalidade e a força de um único homem vivo; pois um único homem pode dobrá-lo à sua vontade. É apenas uma espécie de arma de brinquedo para o povo em si. Mas não é menos necessário por isto, pois o povo deve ter um ou outro mecanismo complicado, e ouvir seu barulho, para satisfazer aquela idéia de governo que possui. Desta forma, governos mostram com qual sucesso homens podem ser enganados, ou enganarem-se a si mesmos, em benefício próprio. Isto é excelente, todos devemos concordar. Entretanto este governo em si nunca favoreceu qualquer empreendimento, a não ser através do entusiasmo com que lhe saiu do caminho. Ele não mantém o livre. Ele não coloniza o Oeste. Ele não educa. O caráter inerente ao povo americano é que tem feito todas estas coisas; e teria feito ainda mais, se o governo não tivesse às vezes ficado no caminho. Pois o governo é uma conveniência através da qual os homens forçadamente obtêm sucesso em deixar uns aos outros em paz; e, como já foi dito, quando for mais conveniente, é quando menos interferir com os governados. O tráfico e o comércio, se não fossem elásticos, nunca conseguiriam contornar os obstáculos que os legisladores estão continuamente colocando em seu caminho; e, se alguém fosse julgar estes homens somente pelos efeitos de suas ações e não parcialmente pelas suas intenções, eles mereceriam serem agrupados e punidos com aquelas pessoas prejudiciais que colocam bloqueios em estradas de ferro.

Mas, para falar de modo prático e como cidadão, diferente daqueles que se proclamam homens anti-governo, eu peço, não por nenhum governo já, mas por um melhor governo já. Deixe cada homem expor que tipo de governo teria seu respeito, e isto seria um passo na direção de obtê-lo.

Afinal de contas, a razão prática de porque, uma vez que o poder esteja nas mãos do povo, é permitido à maioria decidir, e por muito tempo permaneça a fazê-lo, não é por causa desta ter mais chances de estar certa, nem porque isso parece o mais justo às minorias, mas porque é fisicamente a mais forte. Mas um governo no qual a maioria decida em todos os casos não pode ser baseado na justiça, mesmo naquela que os homens sejam capazes de compreender. Não poderá existir um governo em que não as maiorias decidam virtualmente certo e o errado, mas a consciência? – no qual as maiorias decidam somente aquelas questões para as quais a regra da conveniência seja aplicável? Deve o cidadão, sequer por um momento, ou mesmo minimamente, renunciar à sua consciência em favor da legislação? Por que possui todo homem uma consciência, então? Eu acredito que primeiramente devamos ser homens, e só depois subalternos. Não é mais desejável cultivar um respeito pela lei do que pelo correto. O único compromisso que eu tenho o direito de assumir é fazer a qualquer tempo o que acho correto. Já foi dito, de maneira verdadeira, que uma corporação não possui consciência; mas uma corporação de homens conscientes é uma corporação com consciência. Lei nunca fez o homem sequer um pouco mais justo; e, através de seu respeito por ela, mesmo os bem intencionados são diariamente tornados agentes da injustiça. Um resultado comum e natural deste indevido respeito pela lei é que você pode observar uma fila de soldados – coronel, capitão, cabo, soldados rasos, e assim por diante, marchando em uma ordem admirável sobre morro e vale para as guerras, contra suas vontades, oh, contra seu senso comum e consciências, o que torna de fato a marcha muito custosa, e produz uma palpitação no coração. Eles não têm dúvidas de que se trata de ocupação condenável à qual estão dedicados; todos eles têm inclinação pacifista. Agora, o que são eles? Homens, afinal? Ou pequenas fortalezas e pentes de munição, a serviço de algum homem inescrupuloso no poder? Visite o arsenal da Marinha, e contemplem um fuzileiro naval, tão homem quanto o governo americano pode torná-lo, ou quanto um homem pode fabricar com suas artes negras – uma mera sombra e um resquício de humanidade, um homem que se queda vivo e de pé, porém já, como alguém pode dizer, enterrado debaixo das armas com acompanhamentos fúnebres, embora também possa ser que:

“Not a drum was heard, not a funeral note,

As his corse to the rampart we hurried;

Not a soldier discharged his farewell shot

O’er the grave where our hero we buried.”

Charles Wolfe – The Burial of Sir John Moore at Corunna

A massa humana serve ao estado desta maneira, não principalmente como homens, mas como máquinas, com seus corpos. Eles são o exército permanente, e as milícias, os carcereiros, policiais, posse comitatus, etc. Na maioria dos casos não há livre exercício seja do julgamento seja do senso moral; mas eles se colocam no mesmo patamar das árvores, da terra e das pedras; e homens de madeira que teriam a mesma utilidade talvez possam ser fabricados. Estes não mereceriam mais respeito do que um espantalho ou um punhado de lama. Eles têm o mesmo valor que cavalos e cachorros. Entretanto, estes são inclusive regularmente apreciados como bons cidadãos. Outros – como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, ministros e funcionários públicos – servem o estado principalmente com suas cabeças; e, já que eles raramente fazem quaisquer distinções morais, eles têm tanta probabilidade de servir do diabo, sem o querer, quanto a Deus. Uns muito poucos – como os heróis, patriotas, mártires, reformadores no melhor sentido, e homens – servem ao estado também com suas consciências, e, portanto necessariamente resistem-lhe na maior parte; e são por ele tratados como inimigos. Um homem sábio só será útil como homem, e não se submeterá a ser transformado em “barro” feito para “tapar um buraco para evitar que o vento entre”, nem que tenha que deixar esta tarefa para suas cinzas, se necessário:.

“I am too high-born to be propertied,

To be a secondary at control,

Or useful serving-man and instrument

To any sovereign state throughout the world.”

William Shakespeare King John

Aquele que se entrega inteiramente a seu semelhante aparenta-lhes ser inútil e egoísta; mas aquele que se entrega parcialmente é considerado um benfeitor e um filantropo.

Como deve um homem comportar-se em relação ao governo americano de hoje? Eu respondo que ele não pode, sem desgraça, associar-se a tal governo. Eu não posso, nem por um instante, reconhecer esta organização política que é um governo de escravos como meu governo.

Todos os homens reconhecem o direito à revolução; isto é, o direito a recusar lealdade e resistir ao governo, quando sua tirania ou sua ineficiência são grandes e insuportáveis. Mas quase todos dizem que este não é o caso agora. Mas era o caso, eles acham, na revolução de 75. Se alguém viesse me dizer que o atual é um mau governo porque taxou certos produtos estrangeiros trazidos a seus portos, o mais provável é que eu não faria qualquer barulho a respeito, pois posso viver sem eles. Todas as máquinas têm seu atrito; e possivelmente isso causa bem o suficiente para contrabalançar o mal. De qualquer modo, é um grande mal fazer um estardalhaço sobre isso. Mas quando o atrito chega a possuir a sua máquina, e a opressão e o roubo são organizados, eu digo, dispensemos esta máquina. Em outras palavras, quando um sexto da população de uma nação que se comprometeu a ser o refúgio da liberdade é formada por escravos, e um país inteiro é injustamente invadido e conquistado por um exército estrangeiro e submetido à lei marcial, eu não acredito que seja precipitado os homens honestos se rebelarem e fazerem a revolução. O que torna este dever mais urgente é o fato de o país invadido não ser o nosso, mas ser o nosso o exército invasor.

Paley, uma autoridade para muitos em questões morais, em seu capítulo sobre o “Dever da submissão ao governo civil” , reduz toda obrigação civil a conveniência; e ele prossegue dizendo que “enquanto o interesse de toda a sociedade exigir, ou seja, enquanto o governo estabelecido não puder sofrer resistência ou ser trocado sem inconveniência pública, é a vontade de Deus… que o governo estabelecido seja obedecido… mas não além disso. Ao se admitir este princípio, a justiça de cada caso particular de resistência é reduzido ao cálculo da quantidade de perigo e sofrimento de um lado e a possibilidade e o custo de consertá-lo, de outro.” Isto, ele diz, cada homem deve julgar por si próprio. Mas Paley parece nunca ter abordado aqueles casos aos quais a regra da conveniência não se aplica, onde um povo, assim como um indivíduo, deve fazer justiça, custe o que for. Se eu injustamente arrebatei a prancha de um homem que se afoga, eu devo devolvê-la nem que eu mesmo me afogue. Isto, de acordo com Paley, seria inconveniente. Mas aquele que conseguiria salvar sua vida, neste caso, acabaria perdendo-a. Este povo deve deixar de possuir escravos, e de fazer guerra ao México, mesmo que isto custe sua existência como povo.

Nos seus preceitos, as nações concordam com Paley; mas alguém acredita que o Massachusetts faz o que é o correto nesta atual crise?.

“A drab of state, a cloth-o’-silver slut,

To have her train borne up, and her soul trail in the dirt.”

Cyril Tourneur The Revengers Tragadie

Falando de maneira prática, os oponentes da reforma no Massachusetts não são os cem mil políticos do Sul, mas cem mil comerciantes e fazendeiros daqui, que são mais interessados em comércio e agricultura do que em humanidade, e não estão preparados para fazer justiça aos escravos e ao México ao custo que for. Eu não brigo com inimigos distantes, mas com aqueles que, estando aqui perto no lar, cooperam com, e realizam os mandos daqueles que estão distantes, os quais seriam inofensivos sem estes. Nós estamos acostumados a dizer que a massa de homens é despreparada; mas o aperfeiçoamento é lento, porque os poucos não são substancialmente mais sábios ou melhores do que os muitos. Não é tão importante que muitos devam ser tão bons quanto você, quanto é haver uma bondade absoluta em algum lugar; pois isto influenciará o todo. Há milhares que tem opinião oposta à escravidão e à guerra, que não fazem nada na prática para terminá-las; que considerando-se filhos de Washington e Franklin , sentam-se com as mãos nos bolsos, e alegam que não sabem o que fazer e nada fazem; que até adiam a questão da liberdade em favor da questão do liberdade de comércio, e calmamente lêem as cotações atuais junto com as últimas notícias do México, após o jantar e, é possível, adormecem sobre ambas. Qual é a cotação de hoje de um homem honesto e de um patriota? Eles hesitam, e eles lamentam, e às vezes eles fazem petições; mas eles nada fazem de sério ou eficaz. Eles esperarão, bem dispostos, por outros curarem o mal, para que não precisem mais lamentarem. Na maioria, eles dão apenas um reles voto, e uma expressão débil e um boa-sorte à direita, enquanto passam. Existem novecentos e noventa e nove patronos da virtude para um homem virtuoso. Mas é mais fácil lidar com o real possuidor de uma coisa do que com o guardião temporário dela.

Toda votação é uma espécie de jogo, como damas ou gamão, com uma leve tonalidade moral, uma brincadeira com certo e errado, com questões morais; e é naturalmente cercado de apostas. Não se aposta no caráter dos votantes. Eu deposito meu voto, talvez, conforme eu acho correto; mas não estou vitalmente preocupado que o certo deva prevalecer. Aceito deixar isso para a maioria. Sua obrigação, portanto, nunca excede sua proposta. Mesmo votar pelo certo é não fazer nada por ele. É só exprimir fracamente para os homens que seu desejo é de que o certo prevaleça. Um homem sábio não irá deixar o certo à mercê do acaso, nem irá desejar que prevaleça através do poder da maioria. Porém, há pouca virtude na ação das massas de homens. Quando a maioria decidir votar largamente pela abolição da escravidão, assim será porque são indiferentes à escravidão, ou porque há pouca escravidão restante para ser abolida por seu voto. Eles serão, então, os únicos escravos. Somente aqueles que afirmam sua própria liberdade através do voto podem apressar a abolição da escravidão através do voto.

Eu ouvi sobre uma convenção a ser feita em Baltimore, ou em outro lugar, para a seleção de um candidato à presidência, composta principalmente por editores e homens que são políticos por profissão; mas acho, de que serve qualquer decisão a que chegarem para qualquer homem independente, inteligente e respeitável? Não devemos ter a vantagem de sua sabedoria e honestidade, mesmo assim? Não podemos contar com alguns votos independentes? Não existem muitos indivíduos no país que não participam de convenções? Todavia, não: eu vejo que o homem respeitável, assim chamado, desviou imediatamente de sua posição, e perde a esperança em seu país, quando seu país tem mais razão de perder a esperança nele. Ele imediatamente adota um dos candidatos então selecionado como o único disponível, provando assim que ele mesmo está disponível para quaisquer propostas do demagogo. Seu voto não vale mais que o de um estrangeiro sem princípios ou de um nativo mercenário, que pode haver sido comprado. Ah, para um homem que é um homem, e, como meu vizinho diz, tem um osso em suas costas em que você não pode passar sua mão! Nossas estatísticas são equivocadas: a população foi superestimada. Quantos homens existem por mil milhas quadradas neste país? Se muito, um. Os Estados Unidos não oferecem atrativos para homens colonizar aqui? O americano degradou-se em um Estranho Companheiro que pode ser conhecido pelo desenvolvimento de seu órgão gregário, e uma manifesta falta de intelecto e uma alegre autosuficiência; cuja primeira e mais importante preocupação, ao chegar neste mundo, é ver que os albergues estão em bom estado; e que antes ainda de haver legalmente vestido o traje viril, coletar um fundo para o sustento de viúvas e órfãos que possam existir; aquele que, para resumir, aventura-se a viver somente através da ajuda da companhia de Seguro Mútuo, que prometeu enterrá-lo decentemente.

Não é o dever de um homem, inevitavelmente, devotar-se à erradicação de quaisquer, mesmo das mais enormes, injustiças; ele pode perfeitamente ter outras preocupações que requeiram sua atenção; mas é seu dever, ao menos, lavar suas mãos dela, e, se ele não mais pensar no caso, não dar seu apoio prático. Se eu me devoto a outras buscas e contemplações, eu primeiro devo ver, ao menos, que não as busco sentado nos ombros de outro homem. Devo sair de cima dele primeiro, para que ele possa seguir suas contemplações também. Veja que grande inconsistência é tolerada. Ouvi as pessoas de minha cidade falarem, “Eu gostaria que me ordenassem a ajudar a derrubar a insurreição dos escravos, ou a marchar até o México; – veja se eu iria”; e ainda esses mesmos homens têm cada, diretamente pela sua lealdade, e mais indiretamente, pelo menos, por seu dinheiro, fornecido um substituto. O soldado que recusa-se a servir em uma guerra injusta é aplaudido por aqueles que não recusam-se a sustentar um governo injusto que pratica a guerra; é aplaudido por aqueles cujos próprios atos e autoridade ele despreza e vê como perversos; como se o estado fosse penitente até o grau em que diferenciou alguém para castigá-lo ao mesmo tempo que peca, mas não até o ponto em que deixou de pecar por um momento. Portanto, em nome da Ordem e do Governo Civil, nós somos levados enfim a homenagear e apoiar nossa própria mesquinharia. Depois do primeiro rubor do pecado vem sua indiferença; e de imoral passa a ser, como se fosse, amoral, e não inteiramente desnecessário àquela vida que construímos.

O mais comum e prevalente erro precisa da mais desinteressada virtude para sustentar-se. A mais leve das censuras a que a virtude do patriotismo está geralmente sujeita é aquela mais provável de os nobres incorrerem. Aqueles que, ao mesmo tempo em que desaprovam o caráter e medidas de um governo, rendem-lhe a sua lealdade e apoio são indubitavelmente seus mais conscientes patrocinadores, e muito freqüentemente os mais sérios obstáculos à reforma. Alguns estão fazendo uma petição para que o Estado dissolva a União, que desconsidere as requisições do presidente. Por que não dissolvem os próprios a união entre eles e o Estado e recusam-se a pagar suas quotas do tesouro? Não estão eles na mesma relação com o Estado em que está o Estado com a União? E as mesmas razões que impediram o Estado de resistir à União não são as mesmas que impediram eles de resistir ao Estado?.

Como pode um homem se contentar em meramente possuir uma opinião e divertir-se com ela? Há alguma diversão se, na sua opinião, ele for prejudicado? Se você é roubado em um único dólar pelo seu vizinho, você não descansa satisfeito sabendo que foi roubado, ou mencionando que foi roubado, ou mesmo fazendo uma petição para ele pagar o que deve; mas você imediatamente toma medidas efetivas para obter o montante total, e para garantir que nunca mais seja roubado. Agir por princípio, a percepção de se fazer o certo, muda as coisas e as relações; é essencialmente revolucionário, e não condiz integralmente com nada do que antes era. Não apenas divide Estados e igrejas, divide famílias; ah divide o indivíduo, separando o diabólico do divino nele.

Leis injustas existem; devemos nos contentar em obedecê-las, ou devemos esforçar-nos em consertá-las, e enquanto não conseguimos, obedecê-las, ou devemos transgredi-las imediatamente? Os homens, em geral, quando sob um governo como este, acham que devem aguardar até que tenham persuadido a maioria a mudá-lo. Eles pensam que, se fossem resistir, a cura seria pior do que o mal. Mas é culpa do governo que a cura seja pior do que o mal. Ele o torna pior. Por que não é mais apto a antecipar e promover as reformas? Por que não valoriza sua minoria sábia? Por que grita e resiste antes mesmo que seja ferido? Por que não encoraja seus cidadãos a estarem alertas para apontar suas falhas, e fazer melhor do eles fariam? Por que sempre crucifica Cristo, e excomunga Copérnico e Lutero, e declara Washington e Franklin rebeldes?.

Alguém pode pensar que uma deliberada e prática negação da sua autoridade é a única ofensa nunca prevista pelo governo; senão, por que não lhe designou a sua definitiva, apropriada e proporcional penalidade? Se um homem que não tem propriedade recusa-se apenas uma vez a pagar nove xelins ao Estado, ele é posto na prisão por um período ilimitado de tempo por qualquer lei que eu conheça, determinado apenas pelos que puseram ele lá; mas caso ele roube noventa vezes nove xelins, logo lhe é permitido estar à solta novamente.

Se a injustiça é parte do atrito inerente da máquina do governo, deixe estar, deixe estar; possivelmente ele se suavizará – certamente a maquina irá estragar-se. Se a injustiça tem uma mola, ou uma polia, ou um cabo, ou manivela exclusivamente para si, então talvez você possa considerar se realmente a cura não será pior que o mal; mas se é tal a sua natureza que exija que você seja o agente da injustiça para outrem, então, eu digo, desobedeça à lei. Faça com que sua vida seja um contra-atrito para parar a máquina. O que eu tenho que fazer é garantir, a qualquer custo, que eu não me preste à injustiça que eu condeno.

Quanto a adotar os meios que o Estado providenciou para remediar o mal, eu os desconheço. Eles levam um tempo demasiado, além da vida de um homem. Eu tenho outros assuntos para tratar. Eu vim a este mundo, não para principalmente tornar este um lugar bom para se viver, mas para viver aqui, seja bom ou mau. Um homem não tem por fazer tudo, mas alguma coisa; e porque ele não pode fazer tudo, não é necessário que ele faça algo errado. Não é mais minha obrigação enviar petições para o governador ou o legislativo do que é a deles me enviar petições. E se eles não atenderem minhas petições, o que devo fazer então? Mas neste caso o Estado não providenciou meio algum; sua própria constituição é o mal. Isto pode soar rude inflexível e hostil; mas é tratar com a maior bondade e consideração o único espírito que pode apreciá-lo ou mereça-o. Então é uma mudança para melhor, como nascimento e morte, que convulsiona o corpo.

Eu não hesito em dizer que aqueles que se proclamam abolicionistas devem imediata e efetivamente retirar seu apoio, tanto em pessoa como em propriedade, do governo do Massachusetts, e não aguardar até constituir a maioria de um através da qual obterão o direito de prevalecer. Eu acho que é o suficiente que eles tenham Deus do seu lado, sem esperar por este homem a mais. Além do mais, qualquer homem mais correto do que seu vizinho já constitui uma maioria de um.

Eu encontro este governo americano, ou seu representante, o governo estadual, diretamente, e cara a cara, uma vez por ano – não mais – na pessoa do seu coletor de impostos; esta é a única maneira pela qual um homem na minha situação necessariamente o encontra; e então ele diz claramente, Reconheça-me; e a mais simples, mais efetiva, e, no assunto em questão, mais indispensável maneira de lidar com este representante, de expressar nossa pouca satisfação e apreço por ele, é negá-lo então. O meu semelhante, o coletor de impostos, é a pessoa com quem tenho de lidar – pois é, afinal, com homens e não com pergaminhos que eu discuto – e ele voluntariamente escolheu ser um agente do governo. Como poderemos saber bem quem ele é e o que faz como um oficial do governo, ou como um homem, até que ele é obrigado a ponderar se ele deve tratar a mim, seu semelhante, pelo qual ele tem respeito, como um vizinho e um homem de boa índole ou como um maníaco perturbador da paz, e então ver se ele pode superar este obstáculo à sua amizade sem um pensamento mais impetuoso ou um discurso correspondente à sua ação. Eu sei bem disso, que, se mil, se cem, se dez homens que eu possa citar – se apenas dez homens honestos – oh, se um homem HONESTO, neste estado de Massachusetts, ao cessar de ter escravos, realmente fosse despojado de suas posses, e trancado na prisão por isso, seria o fim da escravidão na América. Pois não importa o quão pequeno o começo possa parecer: o que é uma vez bem feito, é feito para sempre. Mas nós preferimos falar sobre: o que dizemos é a nossa missão, a Reforma tem muitos jornais a seu serviço, mas nem um homem. Se meu estimado semelhante, o embaixador do Estado, que irá devotar seus dias ao ajuste da questão dos direitos humanos na Câmara do Conselho, em vez de ser ameaçado com as prisões da Carolina, fosse sentar como prisioneiro de Massachusetts, o estado que está sempre tão ansioso em impingir o pecado da escravidão aos seus irmãos – apesar de no momento ele achar que apenas um ato de inospitalidade é motivo para disputa – a legislatura não adiaria de todo o assunto para o próximo inverno.

Sob um governo que injustamente aprisiona alguém, o verdadeiro lugar para um homem justo é também a prisão. O lugar apropriado hoje em dia, o único lugar que o Massachusetts providenciou para seus espíritos mais livres e menos desesperados, é na suas prisões, é ser trancafiado e apartado do Estado por ação deste, já que estes homens já foram apartados dele pelos seus princípios. É lá que o escravo fugido, e o prisioneiro mexicano em condicional, e o índio que venham declarar as injustiças da sua raça devem encontrá-los; neste lugar separado, mas mais livre e honrado, onde o Estado lança quem não está com ele, mas contra ele – a única casa num Estado escravocrata em que um homem livre pode sobreviver com honra. Se alguém acha que sua influência será perdida lá, e que suas vozes não mais afligirão o ouvido do Estado, que eles não seriam mais um inimigo ao estar detrás dos muros, não sabem o quão mais forte é a verdade do que o erro, nem quão mais eloqüente e efetivamente pode combater a injustiça quem a tenha experimentado em pessoa. Deposite seu voto integralmente, não meramente um pedaço de papel, mas toda a sua influência. Uma minoria é impotente enquanto se conformar à maioria; não é nem mesmo uma minoria, então; mas esta é irresistível quando se põe a obstruir com todo seu peso. Se as alternativas forem manter todos os homens justos na prisão ou desistir da guerra e da escravidão, o Estado não hesitará sobre qual escolher. Se mil homens não pagarem seus impostos este ano, isto não seria uma medida tão violenta e sangrenta quanto pagá-los e, assim, habilitar o Estado a cometer violência e derramar sangue inocente. Isto é, na verdade, a definição de uma revolução pacífica, se é que tal coisa é possível. Se o coletor de impostos, ou qualquer outro funcionário público, me pergunta, como um já o fez, “Mas o que devo fazer?” minha resposta é, “Se você realmente deseja fazer algo, renuncie ao seu cargo”. Quando o sujeito tiver recusado a lealdade, e o funcionário renunciado ao seu cargo, então a revolução estará consumada. Mas, mesmo que um suposto sangue deva correr. Não é uma espécie de sangue derramado a consciência ferida? Através desta ferida a verdadeira imortalidade e humanidade de um homem escorrem, em sangram para uma morte eterna. Eu vejo este sangue correndo agora.

Eu tenho meditado sobre prender o ofensor, em vez de confiscar seus bens -apesar de ambos terem o mesmo propósito – porque aqueles que professam o direito mais puro, e conseqüentemente são os mais perigosos para o Estado, freqüentemente não gastaram muito tempo acumulando propriedade. Para estes, o Estado oferece comparativamente pouco serviço, e um imposto leve rotineiramente parece exorbitante, particularmente se eles são obrigados a ganhá-lo com o trabalho de suas mãos. Se houvesse alguém que vivesse totalmente sem o uso de dinheiro, o Estado em si hesitaria em exigi-lo dele. Mas o homem rico -sem fazer comparações invejosas – é sempre vendido para a instituição que o torna rico. Falando de maneira absoluta, quanto mais dinheiro, menos virtude; pois o dinheiro fica entre um homem e seus objetivos, obtendo-os para ele; e certamente não é grande virtude obtê-los. Ele apazigua muitas questões que de outra maneira este homem seria forçado a responder, enquanto que a única nova questão que lhe impõe é a difícil, porém supérflua, de como gastá-lo. Assim, sua base moral é retirada de debaixo de seus pés. As oportunidades de viver diminuem na proporção em que aumentam os chamados “meios”. A melhor coisa que um homem pode fazer pela sua cultura quando ele é rico é esforçar-se para levar a cabo os planos que mantinha quando era pobre. Cristo respondeu aos herodianos de acordo com a condição deles. “Mostre-me o dinheiro do tributo”, disse ele; e um pegou um centavo do bolso; – se você usa dinheiro que tem a imagem de César nele, que foi quem o fez corrente e com valor, isto é, se vocês são homens do Estado, e alegremente aproveitam as vantagens do governo de César, então paguem-no de volta algo de sua propriedade quando ele o exige. “Dai assim à César o que é de César, a à Deus aquelas coisas que são de Deus”- deixando-os sem saber mais do que antes sobre o que era de quem; pois eles não o desejavam saber.

Quando converso com o mais livre dos meus vizinhos, eu percebo que, seja lá o que possam dizer sobre a magnitude e a seriedade da questão, e sobre seu apreço pela tranqüilidade pública, a essência da questão é que eles não podem dispensar a proteção do governo existente, e eles temem as conseqüências às suas propriedades e famílias se o desobedecerem. Da minha parte, eu não gostaria de pensar que alguma hora dependa da proteção do Estado. Mas, se eu nego a autoridade do Estado quando ele apresenta a conta dos impostos, ele logo irá tomar e arruinar toda minha propriedade, e então molestar a mim e às meus filhos continuamente. Isto é duro. Isto torna impossível para um homem viver honestamente, e ao mesmo tempo confortavelmente, no aspecto externo. Não valerá o tempo gasto para acumular propriedade; ela certamente seria tomada novamente.


Bibliografia: THOREAU, Henry David. Desobediência Civil. São Paulo. Ediouro: 1991



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  1. Henry David Thoreau (1817-1862): ensaista naturalista e filosofo norte-americano foi o pioneiro na instituição da desobediência civil como ação política e libertária. Abolicionista e Pacifista, seus ensaios recaem com forte influência na postura de Gandhi e Martin Luther King

    Michel Amary Neto

    maio 9, 2009 at 5:51 am


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