O soco racional

"Aqui vemos sonhos tirados de livros"

Panegírico (Guy Debord)


Mas se essas Memórias vêem algum dia de luz, eu não duvido que provoquem uma prodigiosa revolta… e como na época em que escrevi, sobretudo no período final, tudo se voltava para a decadência, para a confusão, para o caos que desde então só cresceu, enquanto essas Memórias não respiravam outra coisa que não seja ordem, regra, verdade, princípios indubitáveis e expõem abertamente tudo o que é contrário a isso e que a cada dia reina com mais ignorância e com mais inflexível autoridade; a convulsão, portanto, há de ser geral contra esse espelho de verdades.”

Uma descrição da vida rural na Inglaterra, que Howitt publicou em 1840, podia se concluir tomada de um contentamento sem dúvida abusivamente generalizado: “Todo homem que sabe apreciar os prazeres da vida deve agradecer aos Céus por terem-no permitido viver nessa terra nessa época”. A nossa época, ao contrário não se arrisca a exprimir muito enfaticamente, em relação a vida que se vive nos dias de hoje, a repugnância  geral e terror que começam a ressentir em tantos terrenos. Eles são ressentidos, mas nunca expressos antes das revoltas sangrentas. As razões para isso são simples. Os prazeres da vida foram recentemente redefinidos de forma autoritária: primeiro nas suas prioridades e em seguida na totalidade da substância. E as autoridades que os redefiniam também podiam, a qualquer momento, sem obstáculos de qualquer natureza, decidir qual modificação poderia ser mais lucrativamente se fazer introduzir nas técnicas de sua fabricação, inteiramente liberadas da necessidade de agradar. Pela primeira vez, os donos de tudo o que se faz são também os mestres de tudo o que a respeito se diz. Assim, a demência “construiu sua casa nos altos da cidade”.

Aos homens que não desfrutavam de uma autoridade tão indiscutível e universal, foi proposto apenas, nessa questão de suas sensações dos prazeres da vida, que se submetessem sem fazer mais leve observação, do mesmo modo como eles já tinham eleito, em todas as demais questões, representantes de sua submissão. E ao se deixarem privar dessas trivialidades, que eram apontadas como indignas de sua atenção, mostraram a mesma bonomia que já tinham revelado ao olhar, a distancia, esvaírem-se as poucas grandezas da vida. Quando “ser totalmente moderno” se tornou uma lei especial proclamada pelo tirano, o que o escravo honesto teme, acima de tudo, é que ele possa ser suspeito de saudosismo.

Mais sábios que eu já explicaram muitíssimo bem  a origem do que se sucedeu: “O valor da troca só pode surgir como agente do valor de uso, mas ao vencer por suas próprias armas criou as condições para seu domínio autônomo. Mobilizando todo costume humano e apropriando-se do monopólio de sua satisfação, ele acabou por dirigir o uso. O processo de troca se identificou a todo o uso possível e o subjugou.O valor de troca é condottiere do valor de uso, que acaba por empreender a guerra por conta própria”.

O mundo é só desilusão” resumiu  Villon em um único otcassílabo (“Le monde n’est qu’abusion” é um  octassílabo, aindaque um diplomado dos dias de hoje provavelmente não consiga reconhecer mais de seis sílabas nesse verso). A decadência geral é um meio de a serviço do império da servidão, e é somente por esse meio que lhe é permitido fazer-se denominar progresso.

É preciso saber que doravante a servidão quer ser verdadeiramente amada por si mesma e não mais porque proporcionaria alguma vantagem extrínseca. Ela, que anteriormente podia passar por proteção, já não protege mais nada. Agora, a servidão não procura se justificar pretendendo ter conservado, seja onde for, outro encanto que não o simples prazer de conhecê-la.

Mais para frente direi como se desenrolaram essas fases de uma outra guerra pouco conhecida: entre a tendência geral da dominação social nesta época e o que, apesar de tudo, pode vir a perturbá-la, como se sabe.

Ainda que eu seja um notável exemplo do que essa época não queira, saber o que ela quis talvez não me parece suficiente para estabelecer minha superioridade. Swift disse, com grandes doses de verdade, no primeiro capítulo de sua  Historie dês quatre dernières années Du règne de La reine Anne: “E eu não quero de modo algum misturar o panegírico ou a sátira com a história, tendo apenas a intenção de informar a posterioridade e instruir aqueles que sejam dentre meus contemporâneos ignorantes ou tenham sido induzidos ao erro. Porque os fatos exatamente relatados constituem os melhores elogios e as mais duráveis censuras.” Ninguém melhor do que Shakespeare soube como se passa a vida. Ele avalia que “nos somos urdidos de estofo com que se fazem os sonhos”. Calderón concluiu a mesma coisa. Pelo que precede, estou seguro de, pelo menos ter conseguido transmitir elementos que serão suficientes para que se faça compreender muito precisamente, sem que possa restar nenhum tipo de mistério ou de ilusão, tudo o que sou.

O autor para aqui sua história verdadeira: perdoem-lhe seus erros!


Bibliografia: DEBORD, Guy. Panegírico. Cap. VII: 73 a 77. Trad: CARDONI, Edison. São Paulo. Conrad: 2002


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